Quanto tempo dura a psicanálise, afinal?
A psicanálise não tem um prazo definido de antemão. Há análises que se estendem por alguns meses e outras que seguem por anos, porque o tempo depende da questão que trouxe a pessoa e de como ela trabalha essa questão nas sessões.
Essa resposta costuma frustrar quem procura um número. É compreensível: a gente se acostumou a serviços com começo, meio e fim marcados no calendário. Mas a duração da análise não é uma informação escondida pelo psicanalista. Ela simplesmente não pode ser calculada antes de o trabalho começar.
O que dá para saber desde o início é como o processo funciona, com que frequência as sessões acontecem e como paciente e psicanalista vão conversar sobre o percurso ao longo do caminho. É disso que este texto trata.
Por que a psicanálise não tem prazo fixo
A psicanálise trabalha com o que se repete e com aquilo que a pessoa ainda não consegue dizer, e isso não se organiza em etapas com data marcada. Três razões explicam por que um prazo prometido não faria sentido.
O tempo do relógio e o tempo do processo
Existe o tempo do relógio, que se conta em semanas e meses, e existe o tempo do processo, que é o tempo que uma pessoa leva para perceber, falar e elaborar algo que a incomoda. Os dois raramente andam juntos. Uma questão antiga pode ganhar palavras em poucas sessões; outra, aparentemente simples, pode pedir muito mais tempo.
O inconsciente não segue um calendário
Sigmund Freud descreveu o inconsciente como aquilo que insiste e retorna, muitas vezes sem que a pessoa perceba. Na sessão, a fala livre, a chamada livre associação, permite que esses retornos apareçam. Não dá para prever quando algo importante vai surgir, nem quanto tempo levará para ser elaborado.
O próprio Freud dedicou um texto inteiro a essa pergunta, Análise terminável e interminável, de 1937, em que discute por que o fim de uma análise não pode ser decidido de fora, por uma regra geral.
Cada pessoa chega com uma questão diferente
Uma pessoa procura a análise depois de um luto; outra, por causa de relacionamentos que terminam do mesmo jeito; outra, porque quer entender as próprias escolhas. A psicanálise considera a singularidade de cada história, e por isso o percurso de uma pessoa não serve de régua para o de outra.
O que influencia a duração da análise
Alguns fatores costumam pesar no tempo da análise, mesmo sem determinar um prazo. A tabela abaixo reúne os principais e o que você pode observar em cada um.
| Fator | Como pesa no percurso | O que você pode observar |
|---|---|---|
| O motivo da procura | Uma questão pontual e uma questão que se repete há anos pedem tempos diferentes. | Se o que trouxe você à análise começa a ganhar outros sentidos com o tempo. |
| A frequência das sessões | Sessões mais próximas mantêm o fio do que foi falado e ajudam o trabalho a avançar. | Como você chega e sai das sessões, e se sente falta delas no intervalo. |
| A regularidade | Faltas frequentes ou longas pausas interrompem o ritmo do trabalho. | Se as ausências acontecem justamente quando um tema difícil aparece. |
| O momento de vida | Mudanças, perdas ou novas responsabilidades podem abrir novas questões no meio do caminho. | Se surgem assuntos que não estavam no começo da análise. |
| A transferência | O vínculo com o psicanalista sustenta a análise; quando ele se firma, o trabalho ganha profundidade. | Se você se sente à vontade para falar do que é difícil, inclusive da própria análise. |
| A modalidade | Presencial ou online, a escuta é a mesma; o que importa é ter um lugar reservado e constância. | Se o ambiente das sessões online permite falar com privacidade. |
Nenhum desses fatores, sozinho, define quanto tempo a análise vai durar. Eles ajudam a entender o percurso, não a prever o fim.
Fator 1 · o que mais pesa
O motivo da procura
Uma questão que se repete há anos costuma pedir mais tempo do que uma dúvida pontual. Com a análise, o próprio motivo ganha novos sentidos.
Fator 2
A frequência das sessões
Encontros mais próximos mantêm o fio do que foi falado. A frequência é combinada e pode mudar.
Fator 3
A regularidade
Faltas e pausas longas interrompem o ritmo. Vale observar se elas aparecem quando um tema difícil surge.
Fator 4
O momento de vida
Perdas, mudanças e novas responsabilidades podem abrir outras questões no meio do caminho.
Fator 5
A transferência
O vínculo com o psicanalista sustenta a análise. Quando ele se firma, o trabalho ganha profundidade.
Fator 6
A modalidade
Presencial ou online, a escuta é a mesma. O que conta é a constância e um lugar reservado.
Como paciente e psicanalista avaliam o percurso juntos
A duração da análise não é decidida pelo psicanalista sozinho, nem por uma regra externa. Ela é conversada ao longo do processo, em três momentos principais.
Nas entrevistas preliminares
As primeiras sessões, chamadas de entrevistas preliminares, servem para escutar o que trouxe a pessoa e para que os dois decidam se a análise faz sentido. É nesse começo que se combinam a frequência, o valor e a modalidade. Não é o momento de fechar um prazo, mas é um bom momento para perguntar como o percurso costuma ser acompanhado.
Ao longo da análise
Com o tempo, a frequência pode mudar, e é comum que paciente e psicanalista voltem a conversar sobre o ritmo das sessões. Você pode, e deve, falar sobre a própria análise nas sessões: o que mudou, o que ainda incomoda, o que parece parado.
Perguntas que você pode fazer ao seu psicanalista
- Como você acompanha o percurso de uma análise?
- Com que frequência revemos o ritmo das sessões?
- O que acontece se eu precisar fazer uma pausa?
- Como conversamos quando eu quiser encerrar?
Quando faz sentido conversar sobre o fim
O fim da análise costuma ser construído aos poucos, a partir do que a pessoa percebe em si e do que já pôde elaborar. Ele também pode ser uma decisão do paciente a qualquer momento. O mais importante é que essa conversa aconteça na própria sessão, e não por um afastamento silencioso.
Frequência das sessões e duração de cada encontro
Duas perguntas costumam se misturar com a duração da análise: quantas sessões acontecem por semana e quanto tempo dura cada encontro. As duas respostas são combinadas com o psicanalista.
Quantas sessões por semana
A frequência é combinada no começo e pode mudar ao longo da análise, conforme o momento da pessoa. Não existe uma regra igual para todos. No NUAMCE, esse combinado acontece já na triagem pelo WhatsApp e é revisto com o psicanalista.
Quanto dura cada sessão
Na tradição de Jacques Lacan, discute-se que o tempo de uma sessão não precisa ser medido só pelo relógio, ideia que ele desenvolveu a partir do texto O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada, de 1945. Por isso, no NUAMCE, a duração de cada sessão não é fixa: ela acompanha o trabalho daquele encontro e pode ser mais curta ou mais longa. O psicanalista explica como conduz as sessões já no primeiro encontro, e o valor combinado é sempre por sessão, e não por minuto.
Sinais de cuidado: quando desconfiar de prazos prometidos
Uma análise séria não começa com promessas de tempo ou de desfecho. Alguns sinais merecem atenção antes de você começar.
Promessas que merecem desconfiança
Número fixo de sessões
Ninguém sabe de antemão quantos encontros uma questão vai pedir. Quem promete não explicou como trabalha.
Cura ou alívio garantido
A psicanálise não promete desfecho. Ela oferece escuta e um trabalho feito no seu tempo.
Pacote fechado com desconto
Descontos por muitos meses antecipados prendem a pessoa a um compromisso que ela ainda não pode avaliar.
Pressão para continuar
A decisão de encerrar é sempre do paciente. Ela deve ser conversada, nunca impedida.
Nenhuma dessas práticas combina com a psicanálise, que respeita o tempo de cada pessoa. Para saber como avaliar a formação de quem atende, veja psicanalista, psicólogo ou psiquiatra: qual procurar.
Se você estiver em sofrimento intenso ou em risco imediato, não espere o início de uma análise. Ligue 188 para o Centro de Valorização da Vida (CVV), 24 horas, ou 192 para o SAMU.
A psicanálise caminha com outros cuidados
A duração da análise não impede que outros acompanhamentos aconteçam ao mesmo tempo. Quando o processo pede psicoterapia ou avaliação de medicação, psicólogos e psiquiatras podem acompanhar junto, cada um com o seu tempo e o seu papel.
Começar uma análise também não significa interromper remédios. Qualquer mudança de medicação é decidida com o psiquiatra. Se você ainda está decidindo por onde começar, leia sobre como é a primeira sessão e o que acontece nesse encontro.